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O controverso futuro da energia nuclear nos Estados Unidos

À medida que a crise climática se agrava, cada vez mais se discute o papel da energia nuclear no combate a esse problema.

Dois reatores nucleares em construção na Usina Vogtle, no estado da Geórgia, nos Estados Unidos. O empreendimento estourou o orçamento em bilhões de dólares e está atrasado há anos.
FOTO DE GEORGIA POWER COMPANY

O presidente Joe Biden estabeleceu metas ambiciosas para conter as mudanças climáticas: reduzir pela metade as emissões de carbono dos Estados Unidos até 2030 e zerar as emissões líquidas de carbono em sua economia até 2050. O plano prevê que, até 2035, a geração de energia elétrica se torne uma atividade que não emite carbono. De acordo com analistas, esse é o setor econômico mais fácil de ser transformado em ecologicamente correto.

De onde virá toda essa energia elétrica limpa?

Alguns números da Agência de Administração de Informações de Energia dos Estados Unidos (EIA) ilustram o desafio. Em 2020, os Estados Unidos geraram cerca de quatro trilhões de quilowatts-hora de energia elétrica. Cerca de 60% foram produzidos com a queima de combustíveis fósseis, principalmente gás natural, em cerca de 10 mil geradores, de grande e pequeno porte, em todo o país. Toda essa energia elétrica precisará ser substituída — e sua produção também precisará aumentar, pois a demanda por eletricidade deve ser maior, principalmente se for utilizada para abastecer mais carros.

Fontes de energia renováveis, como energia solar e eólica, cresceram mais rápido do que o esperado. Somadas à energia hidrelétrica, ultrapassaram o carvão pela primeira vez em 2019 e agora produzem 20% da energia elétrica dos Estados Unidos. Em fevereiro, a EIA projetou que as energias renováveis seriam responsáveis por mais de 40% da produção até 2050 — um crescimento notável, talvez, mas ainda bastante aquém do necessário para uma rede elétrica sem carbono até 2035 e para impedir a crise climática.

Esse enorme desafio recentemente levou alguns ambientalistas a reconsiderarem uma alternativa vista há muito tempo com desconfiança: a energia nuclear.

Em outubro de 2020, um rotor de turbina foi instalado na Unidade 4 da Usina Vogtle, um dos dois reatores em construção. FOTO DE GEORGIA POWER COMPANY

A energia nuclear tem muito a seu favor. Sua pegada de carbono é equivalente à da energia eólica, menor do que a da solar e, em ordens de magnitude, menor do que a do carvão. As usinas nucleares ocupam muito menos espaço na paisagem do que as usinas solares ou eólicas e produzem energia também à noite ou em dias sem vento. Em 2020, elas geraram a mesma quantidade de energia elétrica nos Estados Unidos que as energias renováveis, um quinto do total.

Mas muitos discutem se a energia nuclear deve representar grande parte da solução climática nos Estados Unidos. Hoje, o projeto da maioria das usinas nucleares norte-americanas está ficando obsoleto e apenas uma foi construída nos últimos 20 anos. Os defensores da energia nuclear agora estão apostando em projetos de última geração, como versões menores e modulares de reatores convencionais de água leve ou reatores avançados projetados para serem mais seguros, mais baratos e mais flexíveis.

“Inovamos tão pouco nos últimos 50 anos, que ainda temos muito pela frente”, diz Ashley Finan, diretora do Centro Nacional de Inovação em Reatores do Laboratório Nacional de Idaho.

No entanto, a expansão da energia nuclear esbarra em alguns obstáculos importantes, e as eternas preocupações com segurança e resíduos radioativos podem não ser os mais significativos: os críticos também afirmam que os reatores nucleares são simplesmente muito caros e sua construção é demorada para serem de alguma utilidade na crise climática.

O presidente Dwight Eisenhower fez o discurso “átomos pela paz” antes da Assembleia Geral das Nações Unidas em 8 de dezembro de 1953, oito anos depois de duas cidades japonesas terem sido destruídas pelas bombas atômicas norte-americanas e enquanto os Estados Unidos e a União Soviética se preparavam para uma guerra nuclear.
FOTO DE IAEA IMAGEBANK, UNITED NATIONS, NEW YORK

Bombas em relhas de arado

Um reator de teste no Laboratório Nacional de Idaho, onde Finan agora trabalha, produziu energia elétrica a partir de energia nuclear pela primeira vez em 1951. O feito não demorou a ser enaltecido no famoso discurso do presidente Dwight Eisenhower “átomos pela paz” nas Nações Unidas em 1953. Arjun Makhijani, físico nuclear que dirige o Instituto de Pesquisa Energética e Ambiental (IEER), um instituto sem fins lucrativos, ressalta que o discurso foi feito logo após um teste termonuclear na União Soviética, quando o medo da bomba atômica estava no auge.

“Basicamente, ele disse que o tema era muito triste e sombrio — queria dizer algo positivo”, explica Makhijani. O discurso de Eisenhower deu início a uma nova era nuclear: o interesse global por esse tipo de energia aumentou significativamente e países ao redor do mundo começaram a construir grandes reatores, muitas vezes com tecnologia e know-how dos Estados Unidos.

Em 1996, a energia nuclear fornecia 17,6% da energia elétrica mundial. Hoje, esse número caiu para cerca de 10%. O acidente de Fukushima em 2011 foi uma das principais razões para esse declínio. Os 48 reatores nucleares do Japão permanecem praticamente desativados desde então. A Alemanha desativou 11 de seus 17 reatores e pretende desativar os seis restantes até 2022. A Bélgica, a Espanha e a Suíça também estão encerrando seus programas nucleares.

Os Estados Unidos, de longe o maior produtor mundial de energia elétrica por termonucleares, têm atualmente 94 reatores em 28 estados. Mas após o acidente na Usina Three Mile Island em 1979, quando um reator quase derreteu por completo perto de Middletown, no estado da Pensilvânia, o entusiasmo pela energia nuclear diminuiu.

O tempo médio de operação das usinas norte-americanas é de 39 anos e elas têm autorização para operar por 40 anos. Na última década, pelo menos cinco foram desativadas antes do previsto, em grande parte porque os custos de manutenção e fontes de energia mais baratas tornaram sua operação muito dispendiosa.

O fechamento mais recente ocorreu na semana passada, em 30 de abril, quando o segundo dos dois reatores foi desligado na usina de Indian Point, no rio Hudson, ao norte da cidade de Nova York. Até alguns anos atrás, esses reatores forneciam um quarto da energia da cidade. Em todo o país, a EIA prevê que a geração de energia nuclear diminua 17% entre 2018 e 2025.

Em uma cerimônia de agradecimento aos trabalhadores da usina nuclear de Indian Point, capacetes foram pendurados em uma cerca para representar a perda de empregos. A usina, que já forneceu um quarto da energia da cidade de Nova York, fechou em 30 de abril de 2021.
FOTO DE KENA BETANCUR, GETTY IMAGES

Atrasos e gastos acima do orçamento

Embora a oposição de ambientalistas possa ter sido o principal fator que impediu o desenvolvimento nuclear nas décadas de 1980 e 1990, atualmente o maior desafio podem ser os custos. Poucas usinas nucleares foram construídas nos Estados Unidos recentemente porque sua construção no país é muito cara, o que eleva o preço desse tipo de energia.

Jacopo Buongiorno, professor de ciência nuclear e engenharia do MIT, liderou um grupo de cientistas que recentemente concluiu um estudo de dois anos sobre o futuro da energia nuclear nos Estados Unidos e na Europa Ocidental. Eles constataram que “sem redução de custos, a energia nuclear não terá um papel significativo” na descarbonização do setor de energia.

“No Ocidente, a indústria nuclear perdeu substancialmente sua capacidade de construir grandes usinas”, diz Buongiorno, apontando para o esforço da Southern Company em adicionar dois novos reatores à Usina Vogtle em Waynesboro, Geórgia. Eles estão em construção desde 2013, já ultrapassaram o orçamento em bilhões de dólares — o custo mais que dobrou — e o cronograma das obras está atrasado. Na França, classificada em segundo lugar depois dos Estados Unidos em geração de energia nuclear, um novo reator em Flamanville registra um atraso de dez anos e está mais de três vezes acima do orçamento.

“Claramente perdemos o know-how da construção de usinas nucleares tradicionais em escala de gigawatts”, afirma Buongiorno. Como nenhuma nova usina é construída nos Estados Unidos há décadas, fato constatado por ele e seus colegas, as equipes que trabalham em um projeto como o da Vogtle não passaram pelo processo de aprendizado necessário para realizar o trabalho com eficiência. Isso causa atrasos no cronograma das obras e, consequentemente, aumento dos custos.

Em outros lugares, os reatores ainda são construídos a um custo mais baixo, “principalmente em locais onde as obras ficam dentro do orçamento e do cronograma”, explica Finan. A China e a Coreia do Sul são os países onde isso mais acontece. (Sem parcialidade, diversos reatores em grande escala da China também estouraram o orçamento e apresentaram atrasos.)

“Na Ásia, o custo da energia nuclear representa um quarto, ou menos, da energia produzida nos novos empreendimentos do Ocidente”, diz Finan. A mão de obra muito mais barata é um dos motivos, de acordo com Finan e o relatório do MIT, mas a gestão de projetos mais eficiente também tem grande influência.

O estudo do MIT sugere que padronizar projetos de reatores e construir o mesmo reator repetidas vezes são essenciais para redução dos custos. Os pequenos reatores modulares (SMRs na sigla em inglês) podem ser uma saída. A produção desse tipo de reator normalmente não ultrapassa 300 megawatts, comparado aos 1.000 megawatts de uma usina nuclear tradicional. O tamanho reduzido, explica Buongiorno, pode permitir que os componentes desses reatores sejam construídos em fábricas, possibilitando economias na produção e reduzindo o cronograma das obras e os imprevistos. Além disso, os pequenos reatores podem ser utilizados individualmente ou combinados para formar uma única grande usina.

Nos Estados Unidos, uma empresa chamada NuScale teve a certificação de projeto de seu SMR aprovada pela Comissão Reguladora Nuclear, a primeira e única empresa a obter essa certificação. Seu reator é uma versão em miniatura de um reator tradicional, no qual a água pressurizada resfria o núcleo onde ocorre a fissão nuclear. Mas no projeto da NuScale, o reator inteiro fica imerso em uma piscina para protegê-lo de um derretimento acidental.

A empresa NuScale prevê construir 12 desses reatores para produzir 720 megawatts no Laboratório Nacional de Idaho como projeto piloto. Ela recebeu financiamento do Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE), que aprovou o valor de até US$ 1,4 bilhão para ajudar a apresentar a tecnologia. A NuScale planeja vender a usina para um consórcio de energia chamado Utah Associated Municipal Power Systems.

No ano passado, oito das 36 concessionárias do consórcio desistiram do projeto, culpando os custos. A empresa anunciou recentemente que o projeto seria adiado para 2030 e o custo aumentaria de US$ 4,2 bilhões para US$ 6,1 bilhões.

Aqueles que são contra o uso de energia nuclear citam essa última decepção como mais um exemplo do motivo de a energia nuclear não estar à altura da tarefa.

“Se o primeiro SMR não for construído até o fim da década de 2020, e for necessário ativá-lo e ainda estruturar toda uma nova cadeia de abastecimento global, será possível zerar as emissões até 2035?” pergunta Makhijani do IEER. “Não dará tempo de fazer uma contribuição significativa.” Ele acrescenta que o extenso histórico de custos extras e atrasos do setor é especialmente problemático quando se considera os compromissos climáticos. “Não há espaço para erros graves.”

A usina nuclear de San Onofre foi fechada em 2013, levando a um aumento nas emissões de dióxido de carbono na Califórnia. FOTO DE MIKE BLAKE, REUTERS

Uma rede variável e incerta

Em uma rede elétrica, o fornecimento deve corresponder precisamente à demanda em constante oscilação. Atualmente, não há grandes reservatórios para armazenamento de elétrons, como os que temos para água. As energias renováveis dificultam esse equilíbrio porque a quantidade de energia elétrica produzida varia — quando está nublado ou não está ventando, a rede precisa de mais energia proveniente de outras fontes.

O futuro da energia nuclear dependerá, em parte, de sua capacidade de equilibrar uma rede que depende cada vez mais de fontes renováveis. A energia nuclear é tradicionalmente considerada uma fonte de energia de carga básica — os reatores funcionam na maior parte do tempo para que os altos custos fixos sejam distribuídos pelo maior número de quilowatts-hora. Ao contrário das turbinas a gás, que podem ser ligadas e desligadas em segundos para “acompanhar a demanda”, os reatores levam uma hora ou mais para reduzir sua produção pela metade.

Não é que os reatores não conseguem acompanhar a demanda; eles são apenas mais lentos. “Eles conseguem e fazem porque é preciso”, explica Buongiorno. “Só que nunca é uma proposta econômica atraente.”

No fim de 2020, o DOE concedeu US$ 80 milhões a duas empresas que trabalham em projetos de reatores avançados destinados, em parte, a solucionar esse problema. A primeira, TerraPower, startup fundada por Bill Gates, está trabalhando em um reator refrigerado a sódio que, em vez de utilizar seu calor diretamente para acionar uma turbina e gerar eletricidade, armazena-o em um tanque de sal fundido, onde pode ser aproveitado para gerar energia elétrica quando necessário.

A segunda concessão foi destinada a uma empresa chamada X-energy com um reator refrigerado a gás que opera em temperaturas extremamente altas, produzindo vapor que pode ser utilizado em processos industriais e também para a geração de energia elétrica. Essa capacidade de “alteração da carga”, afirmam Finan e Buongiorno, pode ajudar os reatores nucleares a administrar a demanda variável de eletricidade — ao mesmo tempo em que ajuda a descarbonizar o setor. Reatores pequenos podem até mesmo ser instalados ao lado de uma fábrica que utiliza tanto calor quanto eletricidade. Contudo, os rejeitos radioativos de alta periculosidade produzidos por fábricas desse tipo precisariam ser transportados até uma central de gestão de resíduos.

Embora promissores, nenhum desses novos projetos está progredindo rápido o suficiente para possibilitar o cumprimento das metas de Biden. A decisão de apoiar esses dois projetos-piloto, cuja operação está prevista para até 2028, foi chamada pelos oficiais do DOE de a “estratégia mais ousada até o momento”.

Enquanto isso, há uma forma mais direta de equilibrar a variabilidade das energias renováveis: armazenar energia elétrica em baterias. O mercado de armazenamento em bateria em grande escala está explodindo: aumentou 214% em 2020. Além disso, a EIA prevê que a capacidade das baterias passe dos atuais 1,6 mil para 10,7 mil megawatts até 2023.

Makhijani acredita que a energia nuclear não será necessária para equilibrar a rede. Um estudo realizado por ele em 2016 para o estado de Maryland constatou que o aumento do armazenamento em bateria, combinado com incentivos aos consumidores para reduzir o uso de eletricidade nos horários de pico, quase permitiria às concessionárias equilibrar a variabilidade das energias renováveis.

Elas somente precisariam armazenar um pouco de energia na forma de hidrogênio, que pode ser produzido pela passagem de eletricidade renovável na água e, posteriormente, sua conversão novamente em eletricidade em uma célula de combustível. Atualmente, o processo é muito caro, diz Makhijani, mas “desde que não seja uma quantidade gigantesca, é acessível”.

Uma janela de oportunidade

A energia nuclear pode ser uma grande protagonista nas próximas décadas em todo o mundo. A China, o maior emissor de gases de efeito estufa, aumentou sua produção nuclear em 6% em 2020 e atualmente tem 17 novos reatores em construção, de acordo com o grupo comercial denominado Associação Nuclear Mundial. A Índia está construindo seis. É improvável que os Estados Unidos cheguem a esse número tão cedo.

Especialistas discordam sobre a necessidade de construir novas usinas nucleares nos Estados Unidos. Alguns modelos sugerem que seria possível, com as políticas adequadas, cumprir a meta de Biden de descarbonizar a rede até 2035 apenas com a expansão das energias renováveis.

As usinas nucleares que já existem são outra história. O benefício de mantê-las ativas por enquanto é mais amplamente aceito — embora Makhijani argumente que a energia livre de carbono poderia ser substituída com menos custos, investindo em novas fontes de energia, como a eólica e solar.

Como já foram construídos, esses reatores representam, basicamente, custos irrecuperáveis e, como a maioria está ativa há décadas, eles já se depreciaram. Ainda assim, em muitos lugares, a energia gerada por esses reatores precisa competir no mercado, o que não acontece em alguns casos. A Entergy Corporation, proprietária da usina de Indian Point, reconheceu que esse foi um dos fatores que levou à decisão de fechá-la.

A situação das usinas existentes tem grandes implicações: incluindo a Indian Point, sete gigawatts de energia nuclear correm o risco de serem interrompidos até 2026 devido à queda nos preços da energia elétrica.

“Desativar por completo as usinas nucleares elimina os ganhos com energias renováveis”, diz Buongiorno. Quando a Estação Geradora Nuclear de San Onofre, que produzia cerca de 8% da eletricidade da Califórnia, fechou em 2013, o custo local da eletricidade subiu e as emissões de dióxido de carbono na Califórnia aumentaram 9,2 milhões de toneladas no ano seguinte.

O relatório do MIT constatou que, na próxima década, a matriz energética permitirá obter a rede mais econômica e confiável possível. “Nossa análise demonstra que a melhor combinação inclui uma grande parcela de energia nuclear, uma grande parcela de energias renováveis e certa quantidade de armazenamento em baterias, possibilitando baixo teor de carbono, confiabilidade e menor custo”, afirma Buongiorno.

O que faz mais sentido para Michael Corradini, coautor do relatório e ex-diretor do Instituto de Energia de Wisconsin, são políticas federais que oferecem recompensas pelo uso de uma energia de baixo carbono e alto custo-benefício — independentemente da tecnologia. A tributação do carbono é um exemplo de política energética neutra em termos de tecnologia. Outro seria um padrão de energia renovável, do tipo proposto por Biden em seu pacote de infraestrutura. “Se o carbono for tributado, as pessoas substituirão os combustíveis por outras fontes mais econômicas”, diz Corradini.

No fim das contas, “precisamos de uma política que considere todas as opções acima”.

POR LOIS PARSHLEY
FONTE: National Geographic Brasil

A expansão da geração elétrica passa pela energia nuclear

Técnicos dizem que é importante manter os investimentos em energia nuclear - Angela Fernanda Belfort

Técnicos defendem a importância de concluir a Usina Nuclear de Angra 3 - Foto: Agência Brasil

A expansão da energia nuclear no Brasil prevê a conclusão de Angra III e a implementação de quatro novas usinas nucleares, segundo informações que devem fazer parte do Plano Nacional de Energia (PNE) 2050, que aponta diretrizes para o setor e que será lançado ainda este ano. “A definição da localização dos novos empreendimentos deve ocorrer a partir de 2021”, diz o secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia (MME), Reive Barros. A previsão é que duas dessas unidades seriam instaladas no Nordeste e outras duas no Sudeste.

As quatro usinas novas acrescentariam uma capacidade instalada de geração de 4 mil megawatts (MW). Ou seja, cada local escolhido receberia duas usinas com capacidade instalada para 2 mil MW. Para um empreendimento desse porte, o investimento estimado fica em torno de US$ 11 bilhões, o que corresponde a R$ 42,3 bilhões, com o dólar a R$ 3,85, cotação da última sexta-feira (14).

O Atlas Potencial Nuclear Brasileiro apontou mais de 40 áreas que poderiam receber as futuras usinas. “Existem áreas potenciais em Pernambuco, Bahia, Alagoas e Sergipe”, diz o presidente da Eletronuclear, Leonam dos Santos Guimarães, referindo-se ao Nordeste. “Itacuruba é um dos sítios com potencial que poderia ter estudos mais aprofundados”, cita. Localizada a 340 km do Recife, Itacuruba fica no Sertão do São Francisco e possui população de cerca de 5 mil habitantes.

A implementação desses empreendimentos vem sendo alvo de discussões do setor elétrico desde 2007. Na época, o então governador Eduardo Campos (PSB), que esteve à frente do Estado entre 2007 e 2014, chegou a dizer que poderia ser feita uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) alterando a lei que proíbe a implantação de usina nuclear no Estado antes de explorar todas as possibilidades de geração de energia por fontes renováveis. Em março de 2011, ocorreu o acidente na usina de Fukushima, no Japão, o que esfriou a discussão. Depois veio a crise econômica (2015-2017), que deixou o Estado sem recursos e postergou os investimentos.

O governo de Pernambuco informou, por nota, que desconhece estudo que cita Itacuruba como possível local de instalação de usina nuclear e “ressalta que a Constituição Estadual, através do Artigo 216, veda a instalação de usinas nucleares em todo o território pernambucano”. A nota também diz que é necessária “avaliação criteriosa” para “identificar de que forma o Estado pode exercer participação em prol do desenvolvimento energético do País”.

CONFIANÇA

Outra razão que justifica a expansão da energia nuclear é trazer mais confiança para o sistema elétrico brasileiro, segundo os técnicos. A nuclear é considerada energia de base: produz por grande parte do tempo ininterruptamente. A atual ampliação da geração do setor elétrico se baseia nas renováveis, como a eólica e solar, que são intermitentes e podem parar a produção, porque a matéria-prima de ambas depende da natureza. “Não há competição entre as renováveis e nuclear, porque cada uma cumpre papel diferente. Não há uma melhor do que a outra. O importante é o bom aproveitamento das renováveis e nuclear combinando da maneira mais inteligente para buscar a descarbonização do sistema elétrico o mais rápido possível”, resume Leonam. O Brasil está entre os 195 países que se comprometeram a reduzir as emissões de carbono.

Por exemplo, quando os parques eólicos ou solares param de produzir, várias térmicas – incluindo as que queimam diesel – começam a gerar energia para suprir o que não pode ser gerado pelas renováveis. As térmicas a diesel lançam emissões de carbono, que é poluente. As térmicas produzem energia mais cara do que as renováveis, contribuindo para alta na conta de energia.

A energia nuclear pode gerar riqueza e novas tecnologias. O Brasil possui a 6ª maior reserva de urânio (a matéria-prima da energia nuclear). “O impacto econômico gerado pelo Programa Nuclear Brasileiro é importante para um País que tem 13 milhões de desempregados. Essa expansão vai nos dar oportunidades para observar as externalidades econômicas que podem surgir”, afirma o superintendente da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Energia, Felipe Gonçalves.

Energia renováveis e nuclear serão debatidas no Recife

È o Fórum Internacional de Renováveis Versus Nuclear – Experiências Internacionais e Propostas para o Brasil, que acontecerá no dia 4 de julho

A geração eólica já é a segunda maior fonte de geração de energia no Brasil.
Foto: Heudes Regis/Acervo JC Imagem

As energias renováveis, como a solar e a eólica, vão continuar crescendo na matriz energética brasileira. Mesmo com a atual crise, os investimentos continuam, com o aumentar dos parques de geração no curto e no longo prazo. Até 2022, a capacidade instalada da geração solar no Brasil vai sair dos atuais 2 gigawatts (GW) para 3,7 (GW). Nos próximos oito anos (em 2027), a previsão é de que sejam implantados parques eólicos que aumentem em mais 12 GW a capacidade instalada atual desse setor, que é de 15 GW.

Tanto a solar como a eólica, no entanto, são intermitentes, apresentando períodos de queda na produção por dependerem da natureza. Por isso, alguns técnicos defendem que o País deve instalar mais empreendimentos de energia de base, os quais podem produzir por muito tempo ininterruptamente. A energia nuclear é considerada de base e a implantação de novas usinas desse tipo voltou ao debate depois que Bento Albuquerque assumiu o ministério de Minas e Energia no começo deste ano. Antes disso, o ministro fazia parte da equipe à frente do desenvolvimento do submarino nuclear brasileiro. 

A discussão sobre a melhor matriz energética para o País estará no centro dos debates do Fórum Internacional de Renováveis Versus Nuclear – Experiências Internacionais e Propostas para o Brasil, que acontecerá no auditório do Sistema Jornal do Comercio de Comunicação no próximo dia 4 de julho, numa realização da Associação Mundial de Energia Eólica (WWEA, na sigla em inglês).

“É a primeira vez que estamos fazendo um debate desse nível. O Nordeste tem as maiores jazidas de vento e o maior potencial para geração solar do planeta. Participarão do evento grandes especialistas que vão falar das suas experiências no Brasil, Alemanha, Japão e Ucrânia. Num momento de inflexão, é importante pensar o futuro”, comenta o vice-presidente da WWEA e presidente da Eólica Tecnologia, Everaldo Feitosa. A partir do dia 10 de junho, a WWEA reservará 100 vagas para inscrições gratuitas que podem ser feitas no https://wwindea.org.

A eólica já é a segunda maior fonte geradora de energia no Brasil, perdendo apenas para as hidrelétricas. “A expansão da energia elétrica no Brasil passa pela eólica. Todos os países do mundo estão investindo em renováveis para cumprir o acordo do clima. A eólica tem o preço competitivo da energia, com o megawatt-hora sendo comercializado a R$ 88. Se tornou mais competitiva também porque se instalou no País uma cadeia produtiva que fabrica 80% dos equipamentos”, resume a presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Elbia Gannoum. Desde 2014, a energia mais contratada (aquela que é vendida em leilão) é a eólica.







TRANSIÇÃO

Também há outro motivo pelo qual o Brasil está aumentando a quantidade de renováveis na sua matriz elétrica. O mundo está entrando numa era de transição energética, saindo dos combustíveis fósseis poluentes para outros com menos impacto ambiental. O objetivo é chegar a uma matriz energética mais limpa em 2050. “O combustível dessa transição será o gás natural. O Brasil também deve aproveitar a grande reserva de gás natural que possui”, conta Elbia, acrescentando que as hidrelétricas são uma grande fonte complementar à eólica, que gera menos no período de janeiro a maio. “O gás é fundamental porque pode ser usado para gerar energia, quando não tiver a água (nos reservatórios das hidrelétricas)”, resume. Mesmo sendo fóssil, o gás natural é menos poluente do que o diesel.

E a geração nuclear? Não é renovável, porque o urânio é finito. Mas é uma energia limpa e o Brasil tem a 6ª maior reserva desse metal. “O Brasil devia olhar para o que a China faz em termos de geração de energia, porque constrói empreendimentos de várias fontes, ao mesmo tempo com grandes programas na área de eólica, solar, nuclear e termelétrica, tentando reduzir o carvão que é muito poluente”, defende o consultor Carlos Mariz, ex-diretor da Eletronuclear. Ele argumenta que novas usinas nucleares podem dar mais segurança ao sistema de geração de energia do País. “Um sistema deve ter energia de base para dar segurança ao sistema elétrico. O Brasil não pode deixar a energia nuclear de lado se realmente quiser se desenvolver”, destaca Mariz.

Os chineses estão de olho na Argentina para expansão nuclear

Países se preparam para assinar acordo depois de contemplar custos, emissões e questões de segurança

A sala de controle da Usina Nuclear de Qinshan, na China (imagem: Petr Pavlicek/IAEA)

Apesar do cenário de incertezas políticas e econômicas, a Argentina dobrou a aposta e aprovou um grande investimento chinês em energia nuclear. A nova usina será instalada na província de Buenos Aires e contará com tecnologia e financiamento da China para suprir as necessidades energéticas do país.

Como as mudanças climáticas exigem fontes energéticas de baixo carbono, e o país asiático vem buscando aumentar as exportações de energia nuclear em todo o mundo, o projeto na Argentina pode representar um renascimento nuclear, liderado pela China. No entanto, os custos e a segurança ainda são questões preocupantes.

Negociação do acordo

Há quatro anos, a Argentina concordou formalmente em construir a usina. O projeto Atucha III está avançando e a usina entrará em operação em 2021.

Em abril, o presidente da Argentina Mauricio Macri assinou uma carta de intenções com a Administração Nacional de Energia da China. Eles assinarão um contrato nas próximas semanas que inclui um empréstimo de 10 bilhões de dólares, concedido pela China, para cobrir 85% das despesas de construção da usina.

O ministro das relações exteriores, Jorge Faurie, recentemente confirmou o projeto no segundo fórum Cinturão e Rota em Pequim.

A Atucha III será a quarta usina da Argentina, construída nas proximidades de duas outras estações que já estão em operação. Houve alguns atrasos no acordo porque a Argentina enfrenta problemas econômicos e esse novo endividamento gerou preocupações.

“A Argentina está passando por uma crise econômica, e o dinheiro está escasso. Investir em energia nuclear requer um compromisso de longo prazo e a China pode oferecer capital subsidiado para seus clientes no exterior”, afirma Mark Hibbs, especialista do Programa de Políticas Nucleares do Carnegie. “Isso confere à China uma vantagem sobre os outros países exportadores de energia nuclear”.

O projeto Atucha III é parte de um acordo assinado em 2015 pela ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner, que aprovou duas usinas nucleares: uma com tecnologia canadense, que já é usada nas usinas existentes, e outra com tecnologia chinesa.

Macri examinou o acordo quando tomou posse. Na época, não estava claro se a energia nuclear seria suficientemente econômica. O presidente acabou aprovando a construção, mas, devido à crise econômica, apenas uma usina foi contemplada para reduzir o valor do empréstimo.
Fortalecendo os laços

O acordo nuclear está alinhado à “aliança estratégica integral” firmada entre a Argentina e a China, um status diplomático especial que os chineses concedem a poucos países. Durante a administração de Kirchner, os dois países assinaram mais de 20 tratados.

Macri e o presidente chinês Xi Jinping assinaram um plano de ação conjunto, com duração prevista de cinco anos (2019-2023), no último encontro do G20 em Buenos Aires. No entanto, Xi não conseguiu a aprovação formal da Argentina para a sua iniciativa Cinturão e Rota. Esperava-se que o projeto nuclear recebesse o sinal verde, mas houve um impasse nas negociações.

Ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner aplaude a abertura da usina de Atucha II em 2015 (imagem: Presidencia de la Nación)

O atual governo justificou o projeto dizendo que ele ajudaria a reduzir o déficit energético do país e a estreitar os laços com a China. “O acordo revela a maturidade do nosso relacionamento estratégico com a China”, disse Diego Guelar, embaixador da Argentina.

Macri concordou em construir a usina usando tecnologia chinesa, condição prevista no empréstimo chinês. Isso atraiu críticas de um grupo de ex-secretários de energia, que lançaram um comunicado de imprensadizendo que seria mais barato desenvolver projetos solares e eólicos.

“Todos os futuros projetos precisarão fazer parte de um plano nacional e de longo prazo de energia, o que no momento não existe. Os novos projetos devem ser competitivos de um ponto de vista econômico, e alinhados com os compromissos de mitigação do país”, disse Jorge Lapeña, ex-secretário de energia.

As organizações ambientais que priorizam energia eólica e solar concordam com ele.

“Não consideramos a energia nuclear uma fonte de energia renovável porque os seus reatores e resíduos apresentam muitos riscos. Ela não é adequada para a Argentina”, disse Andrés Nápoli, chefe da Fundación Ambiente y Recursos Naturales (FARN). “Uma nova usina nuclear exigiria uma avaliação de risco e impacto ambiental e, até o momento, isso não foi feito”.

Player global

A Argentina foi o primeiro país da América Latina a adotar energia nuclear, mas, apesar de possuir uma indústria avançada, o país sempre importou a tecnologia dos reatores nucleares.

Por outro lado, a estatal argentina INVAP desenvolve satélites e reatores nucleares para os mercados mais exigentes. A empresa foi criada há 40 anos e é reconhecida como líder mundial. Recentemente, a INVAP vendeu reatores nucleares de pesquisa, que são mais simples e operam em temperaturas mais baixas, para a Holanda, Arábia Saudita e Brasil, mas ainda não tem capacidade para exportar tecnologia em escala industrial.

1974 - O ano em que a Atucha I, da Argentina, a primeira usina nuclear da América Latina, começou a operar

“A Argentina compete em poucas áreas na esfera internacional e o segmento de reatores nucleares para pesquisa é um deles”, disse Diego Hurtado, ex-diretor do órgão regulador de energia nuclear da Argentina.

O primeiro projeto de energia nuclear da Argentina – a usina Atucha I, com capacidade de 362 megawatts – entrou em operação em 1974. Depois veio a Atucha II, instalada no mesmo complexo, e a Embalse, no interior da província de Córdoba.

O acordo original com a China contemplava a quarta (Atucha III) e a quinta (Atucha IV) usina nuclear, trazendo mais 1700 megawatts para a rede. A usina que recebeu sinal verde (Atucha III) vai adicionar 745 megawatts.

A energia nuclear compõe cerca de 3% da matriz energética da Argentina. O país depende principalmente dos hidrocarbonetos, cuja produção é subsidiada. As energias solar e eólica têm sido ampliadas nos últimos anos, com licitações para 147 projetos que, juntos, totalizam 4466 megawatts.

Mais uma vitória para a China

A China tem despontado como uma líder global em energia nuclear. Devido aos problemas de poluição do ar, mudanças climáticas e questões de segurança energética, o país tem o maior número de projetos de energia nuclear em fase de desenvolvimento do mundo.

No passado, a China contava com tecnologia importada, mas, em anos recentes, começou a produzir seus próprios reatores, incluindo o reator Hualong One, que será usado na Argentina. O plano Made in China 2025, elaborado pelo governo chinês, revelou que o país quer usar mais tecnologia nacional e elevar a sua indústria nuclear à posição de líder mundial.

O acordo com a Argentina é uma das primeiras histórias de sucesso da indústria nuclear chinesa no exterior. Desde o ano 2000, a Rússia domina o setor de desenvolvimento de energia nuclear, fornecendo 45% da capacidade nuclear do mundo. A China é o quinto maior desenvolvedor, fornecendo 9%. Até o momento, os únicos reatores chineses que foram desenvolvidos no exterior foram vendidos para o Paquistão.

Ainda é uma incógnita se os reatores nucleares da China vão conseguir atrair outros mercados além da Argentina e do Paquistão.

“Depois do desastre em Fukushima, a demanda mundial por energia nuclear enfraqueceu. Os EUA, Alemanha, Coreia do Sul e outros países estão desativando esse tipo de energia”, disse Zhang Hua, engenheiro sênior do Instituto de Ciência e Tecnologia da State Power Investment Corporation, durante uma conversa com a Diálogo Chino.

“A demanda da África do Sul, Turquia, Argentina e outros países não é tão alta quanto esperávamos. As perspectivas atuais para as exportações chinesas de energia nuclear não são promissoras”, acrescentou Zhang.

Jiang Keung, pesquisador sênior do Instituto de Pesquisa Energética da China, ressaltou que os reatores que a China planeja exportar são do tipo Generation III, com segurança aprimorada em comparação com a tecnologia de reatores usada em Fukushima.

Em 2014, o reator chinês Hualong One foi aprovado na avaliação de segurança da Agência Internacional de Energia Atômica, e agora passa por avaliações de segurança na Europa. Em uma entrevista concedida à Associated Press em 2016, Edward Lyman, um especialista em energia nuclear da União dos Cientistas Preocupados, afirmou que as mudanças nos modelos de reatores chineses – que são diferentes dos modelos originais internacionais – levantam preocupações sobre segurança.

A competitividade econômica das exportações nucleares da China será determinante para o seu sucesso, uma vez que existem formas mais baratas de energia que tornam a energia nuclear menos atraente.

Os EUA, que têm um dos maiores números de usinas de energia nuclear do mundo, está desativando as suas usinas de forma prematura porque elas não conseguem competir com o gás natural e a eletricidade renovável. O vice-diretor de projetos da Hualong One disse à South China Morning Post que o reator concorreria com as tecnologias da França e dos EUA.

A China está aumentando a produção nacional e os preços dos reatores podem cair de forma brusca nos próximos anos, disse Jiang. Diante de uma concorrência acirrada por parte dos exportadores consolidados no mercado internacional, principalmente a Rússia, a expansão nuclear internacional da China pode acabar tendo que pegar carona no seu desenvolvimento interno.

“Se conseguirmos defender a energia nuclear, acredito que o mundo pode se voltar para ela”, disse Jiang Kejun.

Solução para a crise climática?

Segundo o Relatório Especial de 2018 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, a energia nuclear tem um papel importante a desempenhar nos cenários onde o aumento previsto da temperatura global é inferior a 1,5 ºC.

A energia nuclear é uma das poucas opções de energia isentas de carbono que pode ajudar a equilibrar a energia eólica e a solar, que fornecem quantidades variáveis de energia. Modelos energéticos mostram que incluir a captura e o sequestro de carbono (CSC) nas usinas de combustíveis fósseis pode tornar a descarbonização da rede elétrica mais barata do que mudar para energia 100% renovável.

No entanto, em todo o mundo, as novas usinas de energia nuclear não estão conseguindo acompanhar o ritmo das desativações, o que significa que uma das principais fontes de energia isentas de carbono está diminuindo, ao passo que as temperaturas estão aumentando.

A redução no número de usinas nucleares significa que os países passarão a depender mais de outras opções, como armazenamento de energia, uma transmissão aprimorada e CSC. Isso é necessário para equilibrar uma rede que se aproxima da energia 100% renovável.

Pesando os riscos

Apesar da crise climática que desponta no horizonte, pode ser que os países rejeitem a energia nuclear por questões de segurança e preço.

Apesar de os reatores Generation III serem mais seguros, a energia nuclear ainda apresenta inúmeros riscos, como, por exemplo, exposição à radiação durante as atividades de mineração de urânio, acidentes como o de Fukushima, e uso de tecnologia para produzir armas nucleares.

Os defensores da energia nuclear afirmam que, apesar dos desastres e acidentes, esse tipo de energia causa menos mortes por unidade de eletricidade do que o carvão e o gás.

A China está desbravando território desconhecido. A empresa de serviços públicos China General Nuclear Powerganhou espaço no Reino Unido através dos investimentos em usinas nucleares e agora planeja construir uma Hualong One. Os críticos levantaram preocupações a respeito do envolvimento da China na construção desse tipo de infraestrutura.

Nos mercados onde a energia nuclear é novidade, os pesquisadores alertam que o ambiente regulatório pode ainda não ser maduro o suficiente para conseguir avaliar e gerir as usinas chinesas com segurança.

Na Argentina, vários grupos da sociedade civil se opõem à energia nuclear. A província de Rio Negro, por exemplo, aprovou uma lei banindo a energia.

O acordo com a Argentina se formalizará nas próximas semanas e servirá como um teste para descobrir se o público está aberto aos riscos da energia nuclear, com tecnologia de um novo exportador, em troca do fornecimento de longo prazo de energia elétrica isenta de carbono.

Por: Fermín Koop e Lili Pike

Intersolar Europe 2019 - Quando a Europa nuclear vira solar

O CEO da Pfalzsolar, Lars Josten, encontra Erica Johnson, da revista pv, na Intersolar.

A editora-chefe da revista pv, Erica Johnson, reuniu-se com Lars Josten, CEO da Pfalzsolar, patrocinador da revista pv live , para discutir as últimas notícias da empresa e como as coisas estão se desenrolando na Intersolar Europe.

revista pv: Boa tarde Lars. Conte-nos sobre o seu mais recente anúncio de notícias sobre o projeto.

Lars Josten: Estou animado em anunciar que ganhamos uma instalação de 21 MW. Novamente na Holanda, mas desta vez parece um trocador de jogo. Ele ficará no único local da usina nuclear na Holanda. Eles decidiram, em vez disso, construir uma usina solar.

Ótimo para ouvir. Qual é a linha do tempo do projeto?

Será construído até o final deste ano ou início de 2020.

A transição energética está ocorrendo enquanto falamos na Europa. O que você está vendo como as principais tendências ou discussões acontecendo agora na Intersolar?

A discussão mais quente é a disponibilidade de painéis. Parece que os fabricantes estão esgotados ou você precisa reservar a capacidade para frente.

Como você está gerenciando isso?

Escolhemos parceiros em que estamos trabalhando com eles para dizer a eles o que precisam manter na fila para nós.

Quais são os avanços que estão acontecendo, se houver, para os EPCs agora?

As discussões em torno do armazenamento foram realmente surpreendentes em seus grandes passos. A combinação de produção e armazenamento será mais interessante, mesmo para nós.

Quais são as capacidades de armazenamento que estão sendo discutidas para seus projetos?

Os projetos que discutimos e sempre foram nossos indicadores mais fortes estão acima de 5 MW.

Ótimo, obrigada.

Uso de energia renovável cresce, mas não impede recorde histórico de emissão de CO2

Energia solar apresenta as maiores taxas de crescimento, mas ainda representa uma fatia muito pequena da geração global de eletricidade.

USINA À BASE DE CARVÃO. MATERIAL RESPONDE POR CERCA DE 30% DAS EMISSÕES DE CO2 RELACIONADAS À PRODUÇÃO DE ENERGIA, SEGUNDO A IEA (FOTO: PEXELS)


O uso de fontes renováveis de energia cresceu 7% em 2018, segundo o relatório anual da Agência Internacional de Energia (IEA) recém-divulgado. O aumento da demanda global por essas fontes foi equivalente a todo o consumo de energia elétrica no Brasil, na casa dos 450 TWh (terawatt-hora, ou a mil vezes um gigawatt-hora).

As fontes solar fotovoltaica, eólica e hídrica de energia representaram, cada uma, algo próximo de um terço do crescimento da energia renovável no ano passado. A bioenergia, gerada a partir de materiais orgânicos, representou os cerca de 5% restantes.

Mas, apesar da maior demanda pela energia renovável, esta ainda respondeu por uma parte menor (45%) do aumento da oferta energética global no ano passado. O restante é gerado por queima de carvão, outros combustíveis fósseis e gás natural.

A energia solar fotovoltaica foi a modalidade cuja demanda mais cresceu (em termos proporcionais) em 2018, segundo a IEA. Com alta de 31% no ano passado, ela dobrou sua capacidade instalada em apenas três anos, chegando agora a 534 GW. Deste total, 44 GW foram adicionados só pela China ano passado. O Brasil tem, ao todo, 2 GW de capacidade instalada para produção de energia solar fotovoltaica, e vem aumentando rapidamente sua participação nesse mercado.

Crescendo menos aceleradamente (12% em 2018), a energia eólica manteve ritmo semelhante ao visto no ano anterior, segundo a IEA. Mais popular no Brasil, que tem 14 GW de capacidade instalada em turbinas movidas pelo vento, essa fonte de energia também foi impulsionada pela China, que instalou mais 5 GW de capacidade de produção, chegando a 20 GW.

FONTE EÓLICA CRESCE, MAS AINDA REPRESENTA APENAS 5% DA GERAÇÃO GLOBAL DE ENERGIA (FOTO: THINKSTOCK)

Já a energia hidrelétrica, a mais utilizada por aqui, teve crescimento bem mais modesto no mundo todo — de apenas 3%. Ainda assim, trata-se da maior fonte de energia renovável, responsável por 60% de toda energia gerada a partir desses recursos.

Emissões de CO2 atingem recorde

Apesar dos números aparentemente favoráveis, a energia renovável ainda representa apenas um quarto de todo o consumo global. Considerado por ambientalistas o meio mais poluente de geração de energia, o carvãoainda é responsável pela maior parte da eletricidade gerada, e seu uso continuou crescendo em 2018.

Também por isso, apesar da adoção cada vez maior de fontes renováveis de energia, as emissões de CO2 relacionadas ao setor energético atingiram em 2018 o recorde histórico de 33,1 Gigatoneladas (GT) de dióxido de carbono — composto cuja presença no ar é considerada um dos maiores causadores do aquecimento global.

Tais emissões cresceram 1,7% no ano passado, a maior taxa vista desde 2013. Somente o CO2 adicionado no período, em relação a 2017, equivale a toda poluição gerada pela aviação internacional.

O uso das termelétricas cresceu 0,7% no ano passado, segundo a IEA, e fez com que o carvão respondesse por mais de 10 GT das emissões de CO2 — quase um terço do total.

Enquanto Estados Unidos e Europa reduziram sua dependência do carvão, a China, apesar de ter intensificado a sua troca por fontes de energia mais sustentáveis, ainda aumentou o uso das usinas à base de carvão em 5,3%. 

Somadas todas as fontes geradoras, o consumo de energia subiu 2,3% em 2018, impulsionado por um crescimento econômico mais robusto que o visto nos anos anteriores.

Ranking

Veja abaixo o ranking das fontes de energia mais usadas para a geração de eletricidade em 2018:

1 - Carvão (38% do total)
2 - Gás (23%)
3 - Hídrica (16%)
4 - Nuclear (10%)
5 - Vento/energia eólica (5%)
6 - Bioenergia e petróleo (3%)
7 - Solar fotovoltaica (2%)

FONTE: ÉPOCA NEGÓCIOS

Os nerds da energia solar derrotaram o sonho nuclear dos militares

Painéis solares ficaram mais baratos e eficientes, fazendo com que mais gente apostasse nessa fonte de energia. Foto: Pixabay 

Energia solar era coisa de nerds até bem pouco tempo atrás. Gente que comprava kits de células fotovoltaicas para instalar em casa, cientistas de universidades ou poucas empresas com centros de pesquisas na área, ou empresários que viam uma oportunidade de negócio mesmo com o enorme custo da tecnologia. Isso mudou radicalmente na última década e a energia solar entrou no jogo para ser uma das principais fontes no mundo. No Brasil, sua história é a antítese do que ocorreu com outra tecnologia, a nuclear.

O Estado brasileiro carrega desde os ano 70 um enorme programa de energia nuclear. Construiu com dinheiro público duas usinas caras e problemáticas, e tem uma terceira travada por uma combinação de custos inviáveis e corrupção. Foi uma aposta do modelo econômico implantado pela ditadura militar: centralizado e pesado, com uma imaginada importância estratégica para o país por causa do domínio da tecnologia nuclear.

No mês passado, os nerds puderam comemorar uma vitória em solo brasileiro: a capacidade instalada da energia solar fotovoltaica ultrapassou a nuclear, chegando a pouco mais de 2 GW de potência. Foi um fenômeno descentralizado, com milhares de instalações em residências, comércios, indústrias e usinas solares majoritariamente implantadas por empresas privadas. O mais importante é que a participação do Estado foi na dosagem certa: leilões feitos pela Aneel permitiram que a energia solar ganhasse escala no país como fonte de energia reserva, que conta com uma garantia de pagamento mais elevada do que a de outras fontes.

O avanço da energia solar no Brasil faz parte de uma onda global. A tecnologia melhorou muito nas últimas décadas, com pesquisas que aumentaram o rendimento dos painéis (mais energia por metro quadrado) e facilitaram a fabricação das células fotovoltaicas. Na outra ponta, entusiastas da tecnologia criaram uma primeira fase de demanda e foram acompanhados por governos e empresas preocupados com a busca de uma fonte energética menos poluente – motor que também levou à adoção em grande escala da energia eólica.

A primeira célula fotovoltaica foi criada na década de 50 nos Laboratórios Bell, onde também foi criado o transístor (que trouxe consigo a revolução digital). Ela produzia 1 watt de potência a um custo mais de 100 vezes maior do que em usinas a carvão. Foram décadas de custos em queda. Segundo a Irena (International Renewable Energy Agency), o preço por watt de potência oscilava entre US$ 2 e US$ 3, em 2010, e hoje já está entre US$ 0,50 e US$ 0,70 por watt, o que deixa a tecnologia competitiva até diante dos combustíveis fósseis. A capacidade instalada no mundo se multiplicou: foi de 8,7 GW, em 2007, para 387 GW, em 2017.

A evolução da energia solar contou com apoio de governos, é claro. Muitos subsidiaram suas indústrias e aceleraram a implantação de parques solares. O efeito, no entanto, foi em grande medida de descentralização de poder, já que a maior escala reduziu custos inclusive para quem instala um painel em sua casa economizar na conta de luz.

No Brasil, já são mais de 50 mil sistemas de microgeração solar. Eles se somam a grande parques geradores implantados por empresas que veem um potencial que pode ser enorme – são 73 usinas em funcionamento no país, segundo a Absolar, associação que representa o setor. Há, portanto, uma diluição de riscos entre pequenos e grandes investidores, o que torna o sistema de geração ainda mais robusto.

É claro que a energia solar é uma solução que precisa ser combinada a outras porque depende do sol para funcionar. Ela precisa que outras fontes entrem à noite em seu lugar, ou que sejam instaladas baterias em massa, algo que ainda está engatinhando no país. Como a tecnologia de armazenamento também tem ficado melhor e mais barata, a tendência é de que essa limitação seja cada vez menos problemática para pequenos usuários.

Enquanto isso, o custo projetado para Angra 3 já ultrapassa os R$ 23 bilhões. Um cálculo feito pelo Instituto Escolhas mostra que se Angra 3 fosse descomissionada no ponto em que está e fosse substituída por parques solares no Sudeste, haveria uma economia de R$ 12,5 bilhões em 35 anos. Mas isso não será feito, porque o sonho militar com a energia nuclear está mais vivo do que nunca.

Local nuclear definido para 300MW de renascimento solar

Crédito: Creative Commons / Florival fr

O governo francês lançou um concurso solar de 300MW na área de Fessenheim.

A usina nuclear homônima está prevista para o fechamento em 2022. Como parte dos planos para a economia da região, o estado comprometeu € 250 milhões para o projeto.

A proposta é dividida em 200MW de instalações de telhado solares de 75MW montadas no solo, com os últimos 25MW esculpidos para sistemas menores. A capacidade será dividida em três parcelas, sendo que a primeira foi licitada em meados de 2019. O plano recebeu aprovação do auxílio estatal da Comissão Européia na semana passada.

De acordo com o programa nacional de licitação da França, os benefícios ambientais dos projetos serão levados em consideração no processo de seleção. Os locais em terras degradadas serão vistos favoravelmente.

"O lançamento deste concurso [cimentos] o compromisso do Governo sobre a conversão do território de Fessenheim ... Ele vai ajudar a desenvolver a produção local de electricidade a partir de energias renováveis ​​e lançar o setor fotovoltaico no Alto Reno", disse François de Rugy, ministro da ecologia da França.

Produção da energia eólica supera pela primeira vez a da energia nuclear no Reino Unido


A energia eólica no Reino Unido ultrapassou a energia nuclear pela primeira vez na história do país.

Os parques de energia eólica no Reino Unido conseguiram uma incrível proeza ao ultrapassar a produção das oito centrais nucleares num trimestre. O feito foi conseguido durante os três primeiros meses de 2018 e marcou a primeira vez que a produção eólica ultrapassou a nuclear.

O Imperial College of London revelou no seu relatório Electric Insights que a produção de energia eólica ultrapassou as outras fontes de energia pela primeira vez na história. Os relatórios trimestrais são criados pelo Dr. Iain Stafell, do Centro de Política Ambiental, acompanhado por outros especialistas. O último relatório destaca que, enquanto estava no pico, os parques eólicos forneciam cerca de 47,3% da energia necessária. Também foi destacado que o vento atingiu o pico em mais de 14 GW de energia elétrica.

Embora esta seja uma notícia promissora, a eólica ainda tem um percurso longo para provar o seu domínio como fonte de energia no Reino Unido. O gás natural forneceu a maior quantidade de energia elétrica do país, 39,4%, e a nuclear atingiu 18,76%.

Uma das principais razões pelas quais tanto a energia eólica soprou no Reino Unido em 2018 está a ser atribuída a uma nova linha de transmissão entre a Escócia e o norte do País de Gales, inaugurada em Dezembro do ano passado. Esse desenvolvimento permitiu que as turbinas continuassem a produzir energia. No passado, eram reduzidas as potências das turbinas quando a rede que alimentavam era incapaz de aceitar mais energia elétrica. O novo cabo de energia também ajudou a desbloquear a eletricidade dos parques eólicos escoceses.

Enquanto isso, os especialistas apontaram as restrições da transmissão de energia como um importante desafio à expansão da energia eólico no Reino Unido. Apesar disso, a energia nuclear teve retrocessos nos primeiros três meses, já que duas das centrais nucleares foram temporariamente encerradas para manutenção e por problemas com a contaminação por algas marinhas.

Central nuclear mais antiga da América fechou

A mais antiga central nuclear dos Estados Unidos fechou, pondo fim a mais de 50 anos de operação.


A mais antiga central nuclear dos Estados Unidos da América encerrou oficialmente um mês antes do previsto. A Oyster Creek Generating Station foi encerrada no início de Setembro, pondo um fim a mais de 50 anos de funcionamento.

A central nuclear abriu portas pela primeira vez em 1 de Dezembro de 1969, na costa de New Jersey. Nos últimos 49 anos, a central produziu 636 MW de energia elétrica e alimentou mais de 600.000 habitações. Segundo a empresa responsável pela gestão, Exelon Generation, as emissões evitadas com a energia produzida pela central equivale à retirada de cerca de 31 milhões de carros das estradas.

Centrais nucleares como a Oyster Creek são ótimas para reduzir as emissões de carbono que seriam produzidas pelas centrais a carvão ou a gás natural, mas o perigo anexado aos seu funcionamento leva a que muitas destas centrais estejam a ser fechadas por todo o mundo. Eles não estavam obrigados a fechar a Oyster Creek, pois tinham licença de utilização até 2029. Mas, uma mistura entre os altos custos de operação e manutenção e os baixos preços da eletricidade, tornaram este tipo de centrais simplesmente inúteis.

Central nuclear Oyster Creek

“A decisão de fechar a central também ajudará a Exelon a gerir melhor os recursos à medida que os custos da matéria prima e da manutenção continuam a subir em sentido oposto aos preços historicamente baixos”, disse a Exelon Generation num comunicado.

Seis centrais nucleares fecharam nos últimos cinco anos nos Estados Unidos e, mais de uma dezena estão programadas para fechar nos próximos dez anos. Também não estão a ser construídas novas centrais nucleares para as substituir. As centrais nucleares requerem um investimento inicial muito grande para a sua construção, o que faz com que se tornem inviáveis para pequenas redes elétricas.

Esta é uma má notícia para a indústria nuclear, mas é uma boa notícia para as energias renováveis que continuam a ganhar terreno.

Geração de energia por meio da fusão nuclear


A geração controlada e regular de energia por meio da fusão nuclear, com a conversão de hidrogênio em hélio, reproduzindo na Terra, em pequena escala, o que ocorre no Sol e em outras estrelas, é uma das grandes promessas tecnológicas para as próximas décadas.

Indo muito além dos resultados já obtidos há tempos em laboratórios, um protótipo de reator, o ITER – cujo nome significa “o caminho”, em latim –, capaz de gerar 500 megawatts de energia, está em construção no sul da França e deverá entrar em operação em 2025.

China, União Europeia, Índia, Japão, Coreia do Sul, Rússia e Estados Unidos participam do megaprojeto, cujo custo deverá ultrapassar a marca de € 20 bilhões.

O ITER não fornecerá energia para a rede elétrica, mas será o primeiro equipamento do tipo tokamak – termo formado pelo acrônimo da expressão em russo para “câmara toroidal com bobinas magnéticas” – em que a energia gerada será maior do que a energia necessária para colocá-lo em funcionamento. Assim, possibilitará testar as múltiplas complexidades técnicas inerentes ao processo e servirá de modelo para máquinas semelhantes.

Para que tudo isso dê certo, porém, existe uma questão crucial: garantir que o processo de fusão nuclear se torne autossustentável, impedindo que a perda de energia por meio de radiação eletromagnética e do escape de partículas alfa – o núcleo atômico do hélio, formado por dois prótons e dois nêutrons – desaqueça o reator.

Resultados experimentais observados ao longo dos 20 últimos anos mostraram que a forma pela qual os íons rápidos (dentre os quais as partículas alfa) são ejetados do plasma varia muito entre diferentes tokamaks. E ninguém compreendia quais condições experimentais determinavam esse comportamento.

O problema foi elucidado agora por um jovem pesquisador brasileiro, Vinícius Njaim Duarte, recém-doutorado com Bolsa da FAPESP e Bolsa de Pesquisa no Exterior e atualmente realizando trabalho de pós-doutoramento no Princeton Plasma Physics Laboratory, nos Estados Unidos.

Duarte foi o autor principal do artigo Theory and observation of the onset of nonlinear structures due to eigenmode destabilization by fast ions in tokamaks, publicado com destaque pela revista Physics of Plasmas, do American Institute of Physics (AIP).

A repercussão de seu trabalho foi tanta que, no maior tokamak dos Estados Unidos, o DIII-D, desenvolvido e operado pela General Atomics em San Diego, Califórnia, foram realizados experimentos dedicados a testar o modelo por ele proposto. E os resultados experimentais confirmaram as predições do modelo.

“Ondas eletromagnéticas excitadas por partículas rápidas em tokamaks podem apresentar variações bruscas de frequência que, em inglês, são chamadas de chirping [chilreio]. Não se compreendia por que em algumas máquinas isso aparecia e em outras não.

Usando modelagem numérica bastante complexa e dados experimentais, Duarte mostrou que a produção ou não do chirping – e, portanto, o caráter da perda de partículas e energia – depende do nível de turbulência do plasma existente no interior do tokamak, no qual estão ocorrendo as reações de fusão nuclear.

Se o plasma não for muito turbulento, o chirping acontece. Mas, se for muito turbulento, não”, disse o físico Ricardo Magnus Osório Galvão, atual diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que foi o orientador do doutoramento de Duarte no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP).

Fusão Nuclear: Movimento "Caótico" de elétrons através do Plasma agora pode ser simulado


Nossa crescente necessidade de fontes limpas de energia levou a pesquisa da fusão ao ponto em que sabemos, em grande parte, entender o modo como o plasma atua dentro de um reator de fusão. No entanto, ainda há muito a descobrir em termos de física dos plasmas.

Os cientistas estão atualmente desenvolvendo um novo tipo de reator chamado tokamak. Este dispositivo produz energia com a ajuda de plasma superaquecido. No entanto, este conceito provou o fato de que ainda existem vários fenômenos físicos que não compreendemos completamente.

Um deles é turbulência. Embora seja aceito que a turbulência do plasma em um reator de tokamak é essencial para determinar seu nível de contenção e desempenho, não sabemos como prevê-lo, ou quais são exatamente os fatores que podem afetá-lo.

Nossa falta de conhecimento é parcialmente devido à complexa mecânica de um reator de fusão. O conceito central é que a energia é produzida pela fusão de dois átomos de hidrogênio aquecidos a mais de 100 milhões de graus Celsius (para se tornar plasma), que formam um novo elemento, mas também liberam um nêutron livre. Reatores Tokamak também usam campos magnéticos extremamente fortes para conter o plasma, devido ao fato de que ele derreteria qualquer coisa que tocasse.

Agora, entre as altas temperaturas e a contenção magnética, os cientistas descobriram que as turbulências aparecem no plasma. Estes podem afetar a capacidade do reator de produzir energia sustentável.

Felizmente, nossa tecnologia novamente salva o dia. O enorme poder de processamento oferecido pelos supercomputadores nos permitiu prever com mais precisão o comportamento do plasma, através do uso de simulações.

Físicos da Universidade da Califórnia realizaram uma série de simulações no Centro Nacional de Computação Científica da Pesquisa Nacional de Energia do Laboratório Nacional de Lawrence Berkeley, para determinar se a energia transportada pelos elétrons no plasma pode ser prevista, e se ela é multiescala por natureza ou não. .

Os testes usaram aprox. 70 milhões de horas de tempo de computação e replicaram as condições medidas em uma corrida de plasma no tokamak DIII-D na General Atomics. Os resultados mostraram aos cientistas que o transporte de energia por elétrons tem, de fato, um caráter multiescala. Isso essencialmente significa que o comportamento dos elétrons também pode ser previsto em escalas muito maiores do que no experimento.

Essas simulações ajudaram os especialistas a entender melhor o que acontece em um reator de tokamak quando ele é acionado. Além disso, eles mostraram que o mesmo tipo de simulação pode ser usado por pesquisadores para entender melhor a física do plasma em reatores de fusão e projetar dispositivos futuros dessa natureza mais eficientes.

Reatores Tokamak ainda estão em sua infância, em termos de desenvolvimento, no entanto, muitos consideram que eles sejam a melhor alternativa para os reatores extremamente prejudiciais que estão atualmente em uso. Existe uma grande possibilidade de que os atuais projetos de pesquisa produzam um projeto prático de tokamak, o qual poderemos construir nos próximos 20 a 30 anos.

Fukushima ainda libera 300 toneladas de água radioativa diariamente, apenas para esfriar


Os efeitos do desastre nuclear de Fukushima ainda não pereceram. Além de já ter tornado o Oceano Pacífico tóxico, também vaza regularmente 300 toneladas de água radioativa.

Embora o desastre de Chernobyl fosse bem conhecido, as pessoas perderam o reconhecimento dos efeitos perigosos do colapso de Fukushima na TEPCO em 2011. Devido ao terremoto em 2010, três reatores nucleares causaram a maior liberação de radiação na água. Ao longo de 5 anos, produtos químicos radioativos piores que os de Chernobyl vazaram para o Oceano Pacífico. As estimativas do dano podem ter sido subestimadas pelas autoridades japonesas, há vários anos. De fato, a quantidade de radiação liberada para o Oceano Pacífico é maior do que quando os EUA testaram armas nucleares nas ilhas do Oceano Pacífico.

Todos os dias, Fukushima ainda vaza 300 toneladas de água radioativa no Oceano Pacífico. No entanto, a fonte desse vazamento não pode ser acessada por humanos ou robôs porque a fonte do vazamento é extremamente quente.

Preocupações começaram a surgir quando a parceria da TEPCO com a General Electric chegou à mesa. A General Electric (GE) sozinha é uma das maiores empresas do mundo e controla muitos fóruns econômicos e políticos. A falta de foco no desastre de Fukushima é pensada para ser explicada pela relação com o GE. No final, 1400 cidadãos japoneses processaram a General Electric pelo desastre de Fukushima.

O desastre de Fukushima e seus efeitos também chegam à América do Norte. Cientistas canadenses observaram um aumento de 300% na radiação na costa do Oceano Ocidental. Este montante aumenta a cada ano, afetando negativamente a vida marinha. No Oregon, EUA, a estrela do mar começou a perder pernas e morrer depois que a radiação de Fukushima chegou à Costa Oeste dos EUA em 2013. Em 2014, a radiação na água da Califórnia aumentou em 500%. Os funcionários do governo disseram que a radiação tinha uma "fonte desconhecida" e que não há necessidade de se preocupar.

Agora que os efeitos maiores de Fukushima chegaram ao outro lado do mundo, os cientistas começaram a se levantar contra a ignorância.

Fonte: Zerohedge